
Todos os anos, reaparece o mesmo debate: em meio a crises políticas, desigualdades persistentes e um cotidiano atravessado por incertezas, seria adequado festejar? A pergunta parte de uma falsa oposição entre responsabilidade e alegria — como se celebrar implicasse ignorar a realidade. O Carnaval, no entanto, prova exatamente o contrário.
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A festa não é negação do mundo, mas forma de enfrentá-lo. Como lembra o historiador e escritor Luiz Antônio Simas: “Não se faz festa porque a vida é mole, mas pela razão inversa. A gente faz festa porque a vida é dura.” A frase sintetiza algo que o Brasil aprendeu na prática: celebrar é também um modo de suportar, elaborar e transformar a experiência coletiva.
A seriedade da festa
O Carnaval ocupa um lugar singular na cultura brasileira. Ele mobiliza bairros, escolas de samba, blocos de rua, artistas independentes, trabalhadores formais e informais. Move a economia, ativa o turismo, gera renda, projeta imagens do país para o mundo. Mas reduzir o Carnaval a números seria empobrecer sua dimensão simbólica. A festa é um território onde o corpo ganha centralidade, a música organiza o tempo e a rua se transforma em espaço de convivência ampliada.
Durante alguns dias, as hierarquias se flexibilizam. Fantasias permitem experimentar outras identidades; a cidade, frequentemente marcada por pressa e tensão, abre espaço para o encontro. Não se trata de suspensão irresponsável das regras, mas de uma espécie de laboratório social — um período em que a convivência é testada em chave lúdica. O riso, o exagero e a performance funcionam como válvulas de expressão para tensões que, no cotidiano, permanecem comprimidas.
Cultura não é luxo
Há também um equívoco recorrente na crítica moralista ao Carnaval: a ideia de que a festa seria um luxo supérfluo. Em um país que atravessa desafios históricos, a celebração pública pode parecer dispensável. No entanto, sociedades que não celebram, adoecem. A cultura não é adereço; é estrutura. O Carnaval reafirma pertencimentos, atualiza tradições e cria narrativas comuns. Ele diz algo sobre quem somos — e, talvez mais importante, sobre quem queremos ser.
Além disso, o Carnaval é profundamente democrático. Nas ruas, convivem diferentes classes sociais, gerações e expressões culturais. Blocos tradicionais dividem espaço com novos coletivos; ritmos dialogam entre si; referências históricas se misturam a pautas contemporâneas. A festa não é estática: reinventa-se a cada ano, respondendo ao seu tempo.
Defender o Carnaval, portanto, não é defender o escapismo. É reconhecer que a vida pública precisa de momentos de expansão, que o cansaço social exige respiros coletivos e que a alegria compartilhada também produz sentido. Festejar não elimina os problemas do país, mas fortalece laços para enfrentá-los.
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Num cenário em que o peso do mundo parece constante, insistir na festa é afirmar que a experiência humana não se resume à dureza. O Carnaval nos lembra que celebrar é um ato de construção simbólica, uma maneira de dizer que, apesar de tudo, seguimos juntos. E isso, em si, já é necessário.
Que seja um Carnaval à altura do que precisamos.
**As críticas e análises aqui expostas correspondem a opinião de seus autores






