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Análise: ‘Meu Namorado Coreano’: entretenimento que constrange

Reality da Netflix aposta na romantização infantilizada e na fetichização mútua como forma de entretenimento.

Joaquim Mamede
Joaquim Mamede
Professor, pesquisador e redator. Formado em Letras pela UFRJ, Mestre e, atualmente, doutorando em Literatura Portuguesa, uno a paixão pela escrita ao prazer da redação aqui no Área Vip. Gosto de escrever sobre Música, Artes e Cultura Pop.
Meu Namorado Coreano - Reprodução: Netflix/Divulgação
Meu Namorado Coreano – Reprodução: Netflix/Divulgação

Estreou no dia 1º de janeiro, na Netflix, o reality ‘Meu Namorado Coreano’. A primeira parte dos episódios foi lançada na virada do ano, e a segunda — com os episódios finais — chega amanhã, dia 8. A proposta é simples: promover encontros entre brasileiras e homens coreanos. O resultado, no entanto, é menos romance e mais constrangimento.

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O programa se sustenta numa sucessão de situações artificialmente romantizadas, que causam vergonha alheia quase imediata. Não apenas pela estrutura típica de reality show, mas porque estamos falando de pessoas adultas tratando interações banais como se estivessem dentro de um dorama adolescente. Silêncios viram “clima”, gestos mínimos são elevados à categoria de grandes atos românticos e qualquer expectativa frustrada é tratada como tragédia emocional.

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Há também um problema evidente de fetichização — e ele não ocorre apenas em uma direção. De um lado, o homem coreano aparece como tipo idealizado, moldado pelo imaginário dos K-dramas: educado, reservado, romântico, quase sempre reduzido a uma estética e a um comportamento esperado. De outro, as mulheres brasileiras também são enquadradas a partir de estereótipos igualmente problemáticos: a latina expansiva, emocional, calorosa, vista como exótica e desejável. Não há encontro entre indivíduos; há a colisão entre fantasias.

O reality não questiona esses estereótipos — ele os explora. A cultura, tanto brasileira quanto coreana, surge como acessório narrativo, não como experiência real. O que poderia ser uma troca intercultural interessante acaba funcionando como confirmação mútua de expectativas previamente construídas pelo consumo de produtos audiovisuais.

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O efeito dos doramas é central aqui. Não como vilão, mas como referência mal digerida. A linguagem da ficção romântica — exagerada, idealizada, muitas vezes infantil — é transplantada para a vida real sem qualquer filtro. O resultado é um deslocamento curioso: adultos performando emoções e frustrações que soam incompatíveis com a própria maturidade emocional que se espera fora da televisão.

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No fim, ‘Meu Namorado Coreano’ não constrange por falhar pontualmente, mas porque assume o constragimento como método. Ele transforma a idealização do outro em entretenimento e vende a fantasia de que relações reais podem seguir o roteiro de uma ficção. Quando isso não acontece, o desconforto é inevitável. E não é um efeito colateral: é o próprio produto.

**As críticas e análises aqui expostas correspondem a opinião de seus autores

Joaquim Mamede
Joaquim Mamede
Professor, pesquisador e redator. Formado em Letras pela UFRJ, Mestre e, atualmente, doutorando em Literatura Portuguesa, uno a paixão pela escrita ao prazer da redação aqui no Área Vip. Gosto de escrever sobre Música, Artes e Cultura Pop.
Prêmio Área VIP 2025
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