
A nova adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” parte de um paradoxo inevitável: como transgredir um romance que já nasce transgressor? O livro de Emily Brontë, publicado em 1847, permanece desconcertante porque recusa a moralização fácil. Na obra, não há heróis, tampouco redenção sentimental. Há obsessão, violência, ressentimento de classe e uma energia erótica que corrói a ordem social. Adaptá-lo, portanto, implica decidir: domesticar essa força ou radicalizá-la.
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O filme opta claramente pela radicalização estética. Há cenas de grande beleza plástica, uma trilha sonora envolvente, assinada pela cantora e produtora Charli XCX, e um investimento na dimensão erótica da relação entre Catherine e Heathcliff. Nesse ponto, a adaptação parece dialogar com a tradição que aproxima literatura e transgressão, lembrando reflexões de Georges Bataille em O erotismo e A Literatura e o Mal, sobre o mal como experiência-limite. O desejo não é aqui romantizado; ele é excesso, desmedida, ruptura da norma. Todos os personagens são moralmente falhos, às vezes cruéis — e, ainda assim, magnetizam o espectador. Essa fidelidade ao caráter perturbador da obra é um mérito.
Entretanto, a força imagética não encontra sempre sustentação na montagem. A estrutura fragmentada do romance — narradores em camadas, temporalidade descontínua, memória como reconstrução — exige uma articulação precisa no cinema. Quando a montagem não organiza adequadamente esses planos temporais e afetivos, a intensidade se dispersa. O resultado pode soar menos como fragmentação produtiva e mais como descontinuidade desorientadora. O filme tem potência, mas nem sempre consegue converter excesso em forma.
A questão mais problemática, contudo, reside na escolha de embranquecer Heathcliff. No romance, sua alteridade racial é central: ele é constantemente marcado como estrangeiro, racialmente ambíguo, não pertencente. Essa condição sustenta o conflito social e alimenta o ciclo de humilhação e vingança. Ao apagar essa dimensão, a adaptação desloca o eixo da narrativa para um plano quase exclusivamente psicológico, enfraquecendo a crítica estrutural que atravessa o texto de Brontë. Em 2026, tal decisão não parece neutra; soa como um apagamento simbólico difícil de justificar estética ou conceitualmente.
Curiosamente, o próprio paratexto do filme parece consciente de sua condição de leitura. O título entre aspas nos cartazes — “O Morro dos Ventos Uivantes” — sugere citação, não reprodução. As aspas funcionam como marcador de intertextualidade: anunciam uma obra que se assume como versão, comentário, reescritura. É um gesto interessante, pois desloca a expectativa de fidelidade para o campo da interpretação. No entanto, essa promessa de leitura autoral exige coerência crítica. Se o filme reivindica o estatuto de citação, suas alterações deveriam tensionar o original, não simplesmente neutralizar um de seus elementos estruturantes.
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Assim, a adaptação oscila entre potência e perda. Ela preserva a energia destrutiva e o fascínio por personagens moralmente ambíguos, reafirmando a vitalidade de uma história que atravessa quase dois séculos. Mas, ao tentar transgredir um romance já radical, acaba por enfraquecer uma de suas transgressões fundamentais. Ainda assim, o fato de suscitar debate talvez seja prova de que a obra de Brontë continua viva — capaz de resistir, provocar e exigir novas leituras.
**As críticas e análises aqui expostas correspondem a opinião de seus autores






