Análise: Quando humilhar alguém virou entretenimento?

A liberdade de expressão não é absoluta e encontra limites legais e constitucionais quando entra em conflito com outros direitos fundamentais

-

João Victor, vive Mau Mau em Quem Ama Cuida - Foto: TV Globo
O ator João Victor, que vive Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida”, da Globo. – Foto: Divulgação/TV Globo

O caso envolvendo o ator João Victor Gonçalves deveria nos incomodar muito mais do que a internet parece disposta a admitir. Nesse último final de semana, o ator foi abordado por um grupo de jovens na chegada do “Rock in Rio”, que o perseguiram e o ridicularizaram durante uma live. Posteriormente, o famoso denunciou o episódio como crime de homofobia.

- Continua após o anúncio -

Para muitas pessoas, o artista exagerou, ficou de “mimimi“. Porém, o intérprete de Mau Mau, de “Quem Ama Cuida”, é assumidamente um homem gay. E em um mundo onde pessoas LGBT+ são assassinadas, agredidas e perseguidas por quem são, esse medo não nasce do nada. Ele nasce da realidade.

Liberdade de expressão não é licença para humilhar

O streamer responsável pela transmissão, conhecido como GH, disse que não gostou da calça que o ator estava usando. Para se defender, afirmou que estava apenas criando conteúdo, por puro entretenimento. E é aí que fica a pergunta: quando foi que humilhar alguém virou entretenimento?

Leia também: Após fim de contrato com bets, Virginia Fonseca pede dinheiro aos fãs

- Continua após o anúncio -

Talvez GH não saiba, mas é um direito seu não gostar da roupa, cabelo, corpo ou do jeito de alguém. Isso, porém, em nenhuma circunstância, lhe dá o direito de transformar essa pessoa em alvo. Muito menos de persegui-la enquanto seus amigos filmam e uma audiência inteira ri. A humilhação não pode e não deve virar produto.

Racismo? Transformar a vítima em vilão é uma saída conveniente

Logo depois, quando João Victor reagiu, a conversa mudou de tom. GH passou a acusá-lo de racismo. E o crime de racismo é sério. Qualquer denúncia precisa, sim, ser investigada com seriedade. Mas também é preciso perguntar por que, depois de uma abordagem filmada e que ganhou repercussão, a discussão muda imediatamente de “o que nós fizemos?” para “o que fizeram contra nós?”.

Porque, honestamente, essa inversão é conveniente. Primeiro, você transforma alguém em conteúdo. Depois, quando essa pessoa denuncia a violência que sofreu, você passa a ocupar o lugar de vítima.

++ Morre ator que fez sucesso em ‘Cheias de charme’ e ‘Malhação’

Homofobia não é entretenimento

Infelizmente, a internet ensinou muita gente que qualquer ser humano pode virar personagem. Que constranger e humilhar rende clique e views. Que, se uma multidão estiver rindo, talvez ninguém precise se responsabilizar pelo que aconteceu. Mas precisa!

Porque, se para fazer alguém rir você precisa transformar outra pessoa em objeto de humilhação, quem exatamente está se divertindo? É preciso refletir sobre que tipo de sociedade estamos construindo quando a crueldade deixa de causar incômodo e passa a virar conteúdo? Homofobia e bullying não são entretenimento.

Leia também: Otaviano Costa entrega fofoca do “Dança dos Famosos”

As análises e críticas aqui são de total responsabilidade de seus autores e não reflete a opinião do Área VIP.

Lívia Cout
Lívia Cout
Lívia Coutinho é formada em Psicologia, mas começou sua trajetória como redatora em Maricá/RJ há mais de seis anos. Ela produz conteúdos para os nichos de política, entretenimento e celebridades. Além do Área Vip, ela também já trabalhou no Portal R7, Jetss e Paipee Brasil.
Temos mais pra Você!
Últimas Notícias