Antonio Fagundes – Foto: Globo/Zé Paulo Cardeal

Mesmo interpretando um empresário com uma doença incurável, Antônio Fagundes não foge ao título de galã. No ar na reprise de Por Amor, o ator se diverte com o título e lembra que a filha, Dinah, do relacionamento com Clarice Abujamra, sempre brinca com esse fato.

Em Bom Sucesso, seu personagem, Alberto, tem outra preocupação, que está bem próxima à vida real do ator: o amor pela leitura. Para Fagundes, Paulo Halm e Rosane Svartman, autores do folhetim, estão conseguindo passar uma mensagem bacana sobre a literatura.

Em mais um bate-papo com o Área Vip, o ator falou sobre a novela e a importância da leitura na construção da educação.

Você também está no ar como Atílio, na reprise de Por Amor (1997). Acha que a imagem do galã mudou um pouco de lá até aqui?

As novelas hoje mostram mais o homem como ele é. O homem como era retratado antigamente é que não existia. Aquele homem perfeito, imaculado; o herói, que não erra nunca… Não, o ser humano erra, nem sempre de propósito, às vezes sem querer. Acho que isso é uma coisa boa da novela contemporânea, de mostrar as possíveis máscaras de cada um. Tanto que às vezes você mostrar, no vilão, lados bons também.

Seu nome ainda figura na lista dos galãs favoritos do público. Como você enxerga isso?

A minha filha, Dinah (do casamento com a também atriz Clarisse Abujamra), sempre me liga quando falam isso (sobre ser considerado galã). ‘Que povo bom, não é, meu pai?’ Realmente é muita bondade das pessoas que hoje, na minha idade, eu ainda seja considerado galã. Meu Deus do Céu, só tenho a agradecer!

Qual a importância de uma novela incentivar a literatura, sobretudo nesses tempos de tantos ataques à cultura?

A televisão, particularmente no Brasil, veio suprir um vácuo, justamente o vácuo da literatura, da falta de cultura do povo brasileiro. A televisão entrou com uma força muito grande dentro desse barco e vem suprindo a nossa população com muita informação. As nossas novelas são novelas dramaturgicamente muito bem estruturadas. Se você comparar as nossas novelas com quaisquer outras novelas – da Turquia, do México, da Venezuela -, você vê que nossas novelas são muito elaboradas dramaturgicamente. Isso quer dizer que a gente cresceu dramaturgicamente e incluiu na nossa dramaturgia temas que as outras novelas muitas vezes não ousam incluir, como problemas sociais, problemas políticos, homossexualidade… A gente discute não só problemas familiares, mas também problemas sociais. Numa época em que a cultura está sendo desmanchada, evidentemente desmanchada, uma reação interessante por parte da população que não concorda com esse desmanche seria assumir que a leitura é uma coisa e que a educação é importante.

Por que você acha que o público tem comprado tanto a mensagem de Bom Sucesso?

Primeiro, porque a Rosane e o Paulo estão sendo muito espertos na forma como estão colocando (a literatura). Não são apenas citações. Eles colocam os personagens dentro de situações parecidas com aquelas da obra literária analisada. É uma identificação que o personagem tem com o romance, que aqueles que não leram ficam curiosos pra saber a respeito e aqueles que leram reconhecem a similaridade do problema. Eu acho que é uma sabedoria deles colocar dessa forma, porque só pode instigar o público a correr atrás (da leitura).

Como é sua relação com a atriz mirim Valentina Vieira, que interpreta sua neta em Bom Sucesso?

A Valentina é um geniozinho! Eu dei dois livros pra ela recentemente, e ela disse que já está lendo. Daqui a pouco eu vou fazer uma chamada pra ver se ela leu mesmo.

Qual tem sido o retorno nas ruas a respeito da novela?

Aqui (no Rio de Janeiro) eu quase não saio. Geralmente é de casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Mas realmente em São Paulo e no aeroporto,  por onde passa gente do Brasil inteiro, a gente percebe que as pessoas estão bem animadas mesmo. Porque tudo isso que falamos está sendo tratando de uma forma suave, bem humorada, gostosa, gentil, alegre… Acho que tudo isso contribui para que as pessoas gostem mais da novela.

Como é contracenar com a Grazi Massafera?

É uma delícia! A Grazi é uma pessoa muito querida por todos. Muito simpática, muito agradável, bem humorada… E uma atriz de mão cheia! Ela está no auge da carreira dela agora, e com certeza ainda vai crescer muito mais. Ela tem aproveitado cada segundo do que o personagem permite, com sabedoria. É um prazer realmente trabalhar com ela. A gente já tinha se cruzado antes em outra novela [Tempos Modernos, de 2010]. Mas, como éramos de núcleos diferentes… Às vezes a gente passa uma novela inteira sem nem ver no corredor os seus colegas – foi o nosso caso aí. Agora, eu tenho o prazer de ela estar até no mesmo cenário que eu! E tem sido ótimo.

E o personagem tem tudo a ver com você no que diz respeito a leitura, não é?

É verdade. É uma coincidência feliz fazer um personagem que fala de um amor da minha vida, que é a leitura. Eu realmente gosto muito de ler, e o Alberto também tem esse lado bonito nele… E, ao mesmo tempo, quem sabe a gente estimula parte do público espectador a arriscar um livrinho, né? Existe uma pesquisa feita pela Fecomércio anos atrás, que constatou que mais de 80% da população brasileira jamais leu um único livro na vida. Isso é horrível! Dos 20% que sobraram, a média de leitura é de um livro por ano. Isso quer dizer que, em 30 anos, ele não lê nem um Jorge Amado! É um problema grave. A leitura é uma experiência tão fantástica, e os autores  têm conseguido passar isso muito bem na novela. O prazer que esses personagens estão descobrindo na leitura, o prazer que a criança tem na leitura… Se as pessoas arriscarem, elas vão descobrir esse prazer também.

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