Fernanda Torres – Foto: Globo/Estevam Avellar

Os Bulhosa estarão de volta em breve e Maria Teresa estará mais terrível do que nunca na segunda temporada de ‘Filhos da Pátria’, prevista pra estrear em novembro no GloboPlay e na TV Globo.

A personagem vivida por Fernanda Torres, desta vez, estará nos anos 1930, mas tão ‘delirante’ quanto nos anos de 1922. O clã, formado ainda pelo pai Geraldo (Alexandre Nero), o filho Geraldinho (Johnny Massaro) e a filha Catarina (Lara Tremouroux), promete arrancar muitas gargalhadas do público.

Em uma visita à cidade cenográfica da trama, o Área Vip acompanhou uma gravação no cenário da favela onde viverá Lucélia (Jéssica Ellen) e Domingos (Sérgio Loroza), que no período já não são mais escravos da família. Mas é lá, também, que Maria Teresa vai fazer caridade e fica fascinada com o local.

Durante a visita, o Área Vip bateu um papo com Fernanda Torres, que adiantou um pouquinho da série e falou sobre a reprise de ‘Selva de Pedra’, onde ela interpretou Fernanda, um dos seus primeiros trabalhos na TV.

O que o público pode esperar da segunda temporada de Filhos da Pátria?

Essa ideia veio logo assim que a gente começou a trabalhar, que era dar um pulo onde tudo no Brasil continua igual. Então, quem era escravo vira empregado doméstico, quem era corrupto continua corrupto, quem era o dono do dinheiro continua o dono do dinheiro. Então a gente vai pra década de 1930, quando o exército, as forças de Getúlio (Vargas) atravessa o país e entram e ele amarra o cavalo no Obelisco.

E quais são as questões da Maria Teresa nessa temporada?

A Maria Teresa (nessa temporada) é menos ascensão social e mais a loucura que ela fica com os militares. Ela acha os militares lindos, ela fica sonhando com o Geraldo não ser escriturário, mas ser militar. O filho ser militar. Ela entra para uma liga de donas de casas perfeitas, que são as mulheres dos militares. Depois ela vai tendo várias questões, ela entra na menopausa… Mas o que legal da série é isso, o esqueleto da sociedade continua sendo sempre igual.

E como vai ser a relação dela com a Lucélia?

A Lucélia (Jéssica Ellen) é empregada e ela (Maria Teresa) não consegue entender como uma pessoa tem que ter folga, horário, ela acha um absurdo isso. E como tudo no Brasil, essas relações se dão pelo afeto, então ela fica magoada da Lucélia ter uma folga. Ela fica triste. Tem uma hora que ela demite a Lucélia. O (Alexandre) Nero também… o Geraldo, ele parece um cágado, ele é deprimido, ele tem essa mistura do pai amantíssimo, do pai de família, ele não é totalmente corrupto, mas ele também não deixa de ser. Ele é um pai bem intencionado, mas ele também é um canalha. Então, a série fala muito dessas mazelas da sociedade brasileira. A Maria Teresa é uma loucura, ela é salva porque ela é uma débil mental, então, você acaba se afeiçoando a  ela, não é possível uma pessoa ser tão imbecil assim.

Você acredita que o Brasil um dia vai se livrar dessas mazelas que acompanham a gente desde o descobrimento?

Eu acho que são conquistas mínimas e retrocessos e conquistas. A gente tá vivendo uma hora meio apocalíptica no mundo, de ‘não tem muito futuro’. Então eu não vejo um futuro em que isso tudo vai estar resolvido. E a própria experiência agora, que você sente que… eu nasci na ditadura, vivi a redemocratização, aquele sonho: ‘quando a democracia vier, a sociedade vai ser diferente’, em muito sentido sim. Eu vivo numa sociedade mais aberta do que eu vivia quando eu era criança. A crise econômica, no (governo) Sarney, o fechamento pro mundo, isso tudo melhorou. Por outro lado, a democracia também nos provou que não há santos, que é um problema estrutural do Brasil, a coisa do jogo político, do poder, se organiza muito na nossa raiz, a questão da desigualdade social que a gente nunca consegue resolver, a violência aumentando por causa dessa desigualdade social, a educação que nunca é resolvida. Eu não vejo num futuro próximo nenhum horizonte. Eu vivi 50 anos pra ir num lugar e falar: ‘caramba, o mesmo assunto da minha infância’.

Você chegou a se inspirar em alguém pra fazer a Maria Teresa?

Não, a Maria Teresa, desde a primeira temporada, ela está nas mulheres, até em você mesma. Ela não tem uma pessoa. Ela é um espírito que habita em muitos lugares. Ela parece a sua tia, a sua mãe, então você tem amor por ela. Mas ela é um monstro. (risos) Isso é o melhor da Maria Teresa.

E o fato de ela não ser a mesma personagem, mas ao mesmo tempo ser outra personagem?

Ela é a mesma personagem, ela não tem diferença nenhuma, ela tá pior (risos). O Bruno (Mazzeo) já escreveu com conhecimento. Eu acho essa temporada mais ‘dark’, porque já é a série com a consciência dos personagens. O Geraldinho vira facista, ele fala na mesa com orgulho: ‘Não sei se eu disse a vocês, mas agora eu sou facista’. Aí a gente pergunta: ‘mas o que você sabe de facismo?’ e ele diz: ‘ué, como conseguir as coisas mais facilmente’. (risos) A Lara está mais feminista, todo muito está com a tinta mais carregada.

Como você vê a comédia falando de coisas tão sérias?

Essa é para o Bruno (Mazzeo), né? Hoje a gente filmou um negócio aqui, que a gente pensa: ‘caramba, será que tem graça?’. Porque tem o humor, mas várias coisas da Maria Teresa são horríveis assim. Ela fazendo caridade no morro, que é a favela começando na década de 30. É a favela se estabelecendo, na Gamboa eu acho, aí ela vem com as mulheres que fazem caridade, as donas de casa perfeitas, e a Maria  Teresa vem dizendo: ‘nossa, que lugar exótico, tão diferente do Brasil’. Ela mora ali na Tijuca, então ela acha que o Brasil é a casa dela. É uma loucura. Mas como isso vai ficar montado. A própria galera que está dirigindo. O Felipe (Joffily – diretor), ele veio do Tá no Ar. Eles fizeram aquela propagando ‘O Branco do Brasil’, tem um parentesco com isso. Você ri, mas se reconhece naquele lugar.

Fernanda, foi anunciado a reprise de Selva de Pedra no canal Viva, o que você acha?

O Nero veio me dar essa notícia (risos). Ele me deu essa notícia rindo. “Não podemos perder, heim, gente’.

Você vai rever?

Não, né? (risos). Nem nos que você acerta você se revê, nos que você errou, então, você tenta esquecer.

A gente percebe que o machismo está refletindo em vários momentos na sociedade atual. Você acha que mudou alguma coisa?

Eu acho que mudou. Os filmes, quando eu comecei a trabalhar, eu comecei com Inocência, um filme que não tinha sexo. Isso era uma surpresa absoluta. O que sustentava o mercado cinematográfico no Brasil era pornochanchada. Teve filmes incríveis como Bye Bye Brasil, Memórias do Cárcere, mas tinha quase uma obrigação de ter cenas (de sexo). Eu acho que as relações pessoais melhoraram, teve mudança sim. Eu acho que a relação com meus filhos é diferente hoje. Nunca se matou tanta mulher, ou talvez nunca soubemos. Mas acho que existe uma consciência sim.

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