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Análise: Por que devemos nos preocupar com a invasão dos EUA na Venezuela

Doutrina Monroe, petróleo e o risco de um novo ciclo de intervenções na América do Sul

Joaquim Mamede
Joaquim Mamede
Professor, pesquisador e redator. Formado em Letras pela UFRJ, Mestre e, atualmente, doutorando em Literatura Portuguesa, uno a paixão pela escrita ao prazer da redação aqui no Área Vip. Gosto de escrever sobre Música, Artes e Cultura Pop.
Reprodução: Redes Sociais
Reprodução: Redes Sociais

A invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro não podem ser tratadas como um episódio isolado da política internacional, restrito às disputas internas de um país vizinho. O que está em jogo é algo muito maior: a reativação explícita de uma lógica intervencionista que marca profundamente a história da América Latina — e que, desta vez, se manifesta de forma direta, bélica e perigosamente próxima de nós.

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Durante décadas, a presença dos EUA na América do Sul se deu sobretudo por vias indiretas: apoio a golpes de Estado, financiamento de ditaduras, sanções econômicas, pressão diplomática e ingerência política. A Doutrina Monroe, formulada no século XIX sob o lema “a América para os americanos”, nunca deixou de orientar essa postura. O que muda agora é a forma. Pela primeira vez, essa doutrina se traduz em uma intervenção militar aberta na América do Sul, rompendo um limite que, até então, era mantido — ainda que de maneira hipócrita.

Da ingerência indireta à intervenção aberta

A justificativa oficial costuma apelar para a defesa da democracia, dos direitos humanos ou da estabilidade regional. No entanto, uma análise minimamente honesta revela que o motor central dessa ação não é o bem-estar do povo venezuelano, mas o controle de recursos estratégicos. A Venezuela concentra as maiores reservas de petróleo do mundo, um ativo crucial em um cenário global marcado por disputas energéticas, crises geopolíticas e reposicionamentos de poder. A história mostra que, quando interesses econômicos dessa magnitude entram em cena, a retórica humanitária costuma funcionar apenas como verniz.

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As consequências desse tipo de intervenção recaem, quase sempre, sobre a população civil: agravamento da crise econômica, colapso de serviços públicos, aumento da migração forçada e instabilidade prolongada. Longe de resolver problemas internos, ações desse tipo tendem a aprofundar o sofrimento social e a fragmentação política. O povo venezuelano, mais uma vez, torna-se refém de um conflito que não controla.

Petróleo, soberania e o risco do precedente

Para nós, sul-americanos — e especialmente para o Brasil, que compartilha fronteira com a Venezuela — o alerta é imediato. Conflitos no nosso entorno não respeitam linhas imaginárias no mapa. Eles impactam fluxos migratórios, segurança regional, relações comerciais e a própria estabilidade política do continente. Além disso, há um risco ainda maior: o precedente. Se uma potência estrangeira pode intervir militarmente em um país sul-americano sob determinadas justificativas, o que impede que o mesmo argumento seja usado amanhã contra qualquer outro governo da região?

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Normalizar esse tipo de ação é aceitar a fragilização da soberania latino-americana como regra. É admitir que decisões políticas internas podem ser arbitradas pela força externa sempre que contrariem interesses estratégicos de grandes potências. A invasão da Venezuela, portanto, não é apenas um episódio grave — é um teste. Um teste para saber até onde a América do Sul está disposta a tolerar a retomada explícita de políticas imperiais em seu próprio território.

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Preocupar-se com isso ultrapassa qualquer ideologia. Trata-se de consciência histórica. É reconhecer que, quando o nosso continente passa a ser tratado como zona de intervenção, nenhum de nós está fora de risco. O que hoje se apresenta como exceção pode, amanhã, se tornar regra. Ao normalizar a presença militar estrangeira como instrumento político, abre-se um precedente perigoso, que enfraquece a soberania regional e reforça uma lógica de poder que historicamente produziu instabilidade, dependência e violência na América do Sul.

**As críticas e análises aqui expostas correspondem a opinião de seus autores

 

Joaquim Mamede
Joaquim Mamede
Professor, pesquisador e redator. Formado em Letras pela UFRJ, Mestre e, atualmente, doutorando em Literatura Portuguesa, uno a paixão pela escrita ao prazer da redação aqui no Área Vip. Gosto de escrever sobre Música, Artes e Cultura Pop.
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