Carolina Dieckmann (Globo/Estevam Avellar)
Carolina Dieckmann (Globo/Estevam Avellar)

Dar vida a Afrodite em ‘O Sétimo Guardião‘ tem sido mais um desafio na carreira de Carolina Dieckmann. Além de interpretar uma mulher submissa na trama de Aguinaldo Silva, a atriz tem que conviver com a distância da família, que atualmente vive nos Estados Unidos. Mas essa companheira que acata todos os desejos do marido começa a tomar novos rumos no folhetim. Aos poucos, Afrodite começa a questionar Nicolau (Marcelo Serrado) em vários pontos, mas principalmente em relação aos filhos.

Em um bate papo com o Área Vip nos bastidores da novela, Carolina falou sobre  as questões que envolvem a personagem.

Como tem sido interpretar a Afrodite e quais as suas expectativas daqui para frente para a personagem?

Estou amando! Eu já tinha essa expectativa em relação a Afrodite. A briga (da personagem com o marido) foi o primeiro embate. Acho que  foi  a primeira vez que ela se deu conta do lugar que ela está já há muito tempo. A novela mesmo começou ali. É  como se fosse o despertar da minha personagem. Até então ela estava dando conta de tudo e de repente a possibilidade daquele pai brecar o desejo da filha faz ela pensar nela. Acho que ela não quer que a filha reproduza aquilo que ela deixou que fizessem com a vida e história dela. Ela toma aquilo para si. É o início de uma percepção dela que ela quer resolver o sonho da filha e ela talvez possa se dar conta dos sonhos dela mesma, dos sonhos que ela deixou para trás. Vai ser o estopim que começa a mostrar quem é essa mulher.

O Marcelo Serrado disse que existe a possibilidade de algum dia essa mulher largar o marido.  O que você pensa sobre isso?

Eu penso que a gente não escolhemos por quem nos apaixonamos. Muitas vezes  num relacionamento, você vai construindo uma família e vai tendo amor pelos frutos que aquela relação dá. O amor vai expandindo para aquilo tudo que a gente chama de família e de convivência. E depois você identifica que o cara que você casou não é aquilo que você pensava, e que você de repente abriu mão de coisas que você não deveria ter aberto. Então você começa a se dar conta, mas isso também não significa que você deixou de amar aquela pessoa. Não significa que através do amor você não consiga transformar aquela pessoa. Hoje vivemos uma discussão de apontar o dedo e julgar e bastas. Mas a gente tem que entender também que a possibilidade de transformação se dá através do amor, compreensão, e se dar conta de algo que a outra pessoa não tenha conseguido, talvez pela criação dela, pela maneira como ela chegou ali ou pela educação. Muitas vezes a gente tem percepções que os outros não têm, e não é agredindo. É apontando e amando. Através do amor a gente pode transformar muita coisa.

Você tem escutado relatos de mulheres que se identificam com a personagem, ou que já viveram casamentos assim?

Tenho ouvido sim. Até teve uma situação engraçada que aconteceu num posto de gasolina. O moço me perguntou: ‘E ai, você não vai dar um filho pro Nicolau?’.  Também do outro lado tem uma coisa que eu achei bonitinho ele falar assim. Talvez aquele é um cara casado que se identificou. O Nicolau é machista, é homofóbico, mas ele não deixa de ser um homem. Está passando por cima dos filhos, da mulher, por conta dos desejos dele, e não está certo, mas isso não significa que ele seja um monstro. E não significa também que pessoas não se identifiquem com algumas coisas que elas pensam que está certo e que agora elas podem discutir consigo mesmo. Esse lado da novela é uma coisa muito maravilhosa, contar histórias para as pessoas e ver essas histórias entrando na vida delas e dando sinais do que elas desejam e do que elas não desejam.

Você já conversou com algumas dessas mulheres?

Várias. Eu conheço muitas mulheres que não estão satisfeitas no casamento, ou  com o que elas fizeram da vida delas. Tem muita particularidade. E eu espero com a Afrodite buscar este olhar da mulher para ela mesma. A Afrodite está iniciando este olhar através da história da filha, mas muitas vezes as histórias das mulheres não dão essa possibilidade, esses despertar. Quem sabe vendo, mesmo que na dramaturgia, uma mulher olhando para si, elas olhem para a vida delas, já é o começo da revolução”.

Você acha que essa personalidade do  Nicolau vem muito do homem do interior como Serro Azul?

Não. A gente vê muitos desses por ai no Rio de Janeiro em 2018. Sei que é polêmico esse assunto, mas tem muito a ver com educação. A gente não pode cobrar que elas tenham a mesma percepção que a gente que estudou. Quantas pessoas não estudaram? Quantos homens viram a mãe apanhar a vida inteira e defendeu… O que é a violência que tantas famílias e homens e mulheres vivem e o que elas produzem em cada um é diferente. A gente não pode cobrar das pessoas que tenham a mesma percepção que a gente que estudou, que teve amor de pai e de mãe, porque muita gente não teve isso. Temos que olhar os outros com mais generosidade e menos dedo na cara. Olhar com mais empatia. Às vezes a pessoa tem uma atitude machista e não se dá conta. Eu acredito nisso. Aquilo ali é a maneira que ela aprendeu de viver, e não parou para olhar para as próprias atitudes. Com as coisas acontecendo a pessoa não parou para olhar para ele. Não parou para olhar para as atitudes dele. Mas não são monstros, são pessoas que às vezes não tiveram as condições que a gente tem. Claro que a gente a gente tem pessoas que tem percepção e ainda assim pensam que a mulher é um bicho inferior, e aquelas coisas que o Nicolau acha, mas não é todo mundo. A reflexão que eu busco é da gente olhar para o outro com mais afeto e compreensão. Muitas vezes a gente ama pessoas assim. A gente não pode simplesmente jogar as pessoas no lixo.’Ah não deu certo, joga fora’. Não é assim. Temos que saber olhar para o outro. Temos que pensar de que maneira queremos lutar e transformar.

Você acredita que na possibilidade um machismo extremo sofrer uma transformação?

Eu acredito.

Tem pessoas que são machistas, e outras que reproduzem o discurso machista…

Essas pessoas estão aí, e a gente sabe. A gente deve ter pedaços de Nicolau em nossa família, que trabalham perto da gente, ou um colega de trabalho que fala uma coisa. A gente conhece essas pessoas, não com todas as qualidades e defeitos do Nicolau, e o ser humano, se a gente parar de acreditar no ser humano, acabou tudo.

Já conversou com alguma pessoa machista para tentar alertar?

Eu tenho amigos com quem eu converso. Às vezes eu sinalizo, muitas vezes as pessoas entendem, muitas vezes não. Tem que ter um jeito de falar para a pessoas, um cuidado para não invadir o espaço que é do outro. Eu conheço muita gente com muitos aspectos do Nicolau.

Como tem sido o retorno do público?

Está sendo emocionante. Acho que é um pouco de tudo o que eu dei. Eu tenho um respeito enorme por fazer novela. Eu gosto de falar com essas pessoas que não foram ao teatro, não tem dinheiro para ir ao cinema toda semana, que não tem dinheiro para comprar um livro, e estão lá vendo a novela. Essas pessoas merecem respeito, merecem um produto de qualidade para assistirem. Ter esse carinho é uma relação que vai se alimentando um pouquinho daqui e dali.

O figurino dela às vezes nem condiz muito com o pensamento do marido dela, né?

É sempre um trabalho conjunto, o figurinista traz a proposta e a Afrodite tinha essa coisa de uma mulher que o marido gosta de olhar pra ela. Ela tem uma vaidade,  mas que também não pensa muito em si. Tem uma flor, um mix de estampa, não tem um pensamento, não tem uma harmonia, ela tem desejo pelo marido. Ela tem tudo, mas está tudo muito confuso. Mas ela é uma dona de casa e o figurino ajuda muito ela mostrar essa confusão e ao mesmo tempo essa beleza dela.

Você acha que ela pensa muito no futuro?

Eu não sei, acho que ela é essa confusão. Ela é uma mulher acordando. Acho que a gente vai ver esses detalhes a partir de agora. Ela pensando na carreira da filha, ela está pensando em só resolver este problema da filha. Não existe outras coisas, é o problema da vez, ela não teme se olhar que eu tenho sobre a minha vida, ela não tem esse pensamento, ela ainda não se achou, mas vai se achar.

Como é a parceria com a Larissa (Ayres) e outros atores que interpretam seus filhos?

Eu olho para eles como filhos. Eu tenho filhos, e essa relação maternal. Acho que com muitos amigos e com eles ficou muito imediato por serem meus filhos na ficção. Automaticamente lembro da relação que eu tenho com meus filhos e trago isso para eles também propositalmente. Esse amor materno que a gente tem, é muito bom poder emprestar para essa personagem.

Nesses 25 anos de carreira, você brilhou. Como você avalia essa caminhada? Você se arrepende de não ter feito mais teatro ou cinema?

Eu acho que as coisas acontecem como elas tem que acontecer. Às vezes é uma escolha errada que lá na frente dá certo, às vezes é uma escolha certa que lá na frente dá errada e você conserta. A vida é isso, eu realmente esse ideal que eu busco de viver o presente tem muito a ver com isso. De fazer o que é melhor para se fazer agora. Então por mais que às vezes a vida da gente seja difícil, agora, por exemplo, eu aqui falando com vocês eu estou triste porque a minha família não está aqui. Tem uma dificuldade, tem uma tristeza, tem uma falta, mas o que eu posso fazer por isso. Eu posso pensar sobre, posso sentir ou fazer do meu dia mais legal do que poderia ser. Tudo na vida da gente tem a oportunidade da gente transformar. Eu acredito nisso, e eu vivo isso.

Você tem essa  preocupação de criar meninos com uma visão feminista?

Eu acho que tem algumas coisas. Uma é o exemplo que você dá, você não ter esse tipo de relação na sua casa já é uma maneira de seus filhos verem uma coisa diferente. Acho que já existe uma evolução nas escolas, nas pessoas instruídas. O mundo já está mudando a algum tempo, os meus filhos estudaram, o Davi, que tem 19 anos, estudou numa escola melhor da que eu estudei, menos machista do que a que eu estudei. Então tem uma ajuda da sociedade privilegiada, que não é geral, meus filhos são privilegiados. E eu realmente identifico nos meus filhos zero machismo. Não vejo mesmo. Mas acho que é um privilégio, não é algo pra se comemorar. A gente tem muita coisa por aí. Mas acho que é exemplo, amor … mas exemplo é 70%.

E carnaval, você vai sair no Bloco da Preta?

Com certeza, estarei lá. O bloco é uma semana antes do carnaval. Então, desde que eu comecei a fazer o Bloco da Preta com ela, eu não penso mais em carnaval. Meu carnaval é o bloco, depois eu viajo. Pro Tiago (Worcman) foi ótimo, ele não gosta de carnaval, a gente acaba sempre viajando. Esse carnaval eu ainda não sei, o que eu posso dizer é que uma semana antes eu estarei no Bloco da Preta.

Veja também:

Resumos dos capítulos de O Sétimo Guardião – de 20 de Dezembro à 05 de Janeiro



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