Nelson Freitas (Globo/Tomás Arthuzzi)
Nelson Freitas (Globo/Tomás Arthuzzi)

Quando aceitou o convite para entrar na novela das sete da Globo, “O Tempo Não Para” como Livaldo, Nelson Freitas não imaginava como o personagem mexeria com o seu emocional.

A volta de Livaldo vai trazer muitos conflitos com seu filho, Samuca (Nicolas Prattes), que não fazia ideia que sua mãe, Carmem (Christiane Torloni) afastou o ex propositalmente da sua vida para protegê-lo. Na vida real, Nelson viveu situação semelhante em relação ao próprio pai e chegou a fazer terapia para resolver esses conflitos. Hoje, ele superou muita coisa e conta que conheceu o verdadeiro amor depois da convivência como o neto, Felipe, filho de uma de suas enteadas, filha de sua mulher, Maria Cristina Cordeiro.

Em conversa com o Área Vip, o ator falou sobre seu personagem.

Confira a entrevista:

O Tempo Não Para - Dom Sabino - Carmen e Livaldo (Globo/Victor Pollak)
O Tempo Não Para – Dom Sabino – Carmen e Livaldo (Globo/Victor Pollak)

Você já chegou em O Tempo não Para com cenas fortes. Como é interpretar esse homem que abandonou o filho e a esposa e volta tanto tempo depois?

Esse negócio é muito difícil. Quando você pega uma personagem,  a primeira coisa que você tenta fazer é criar uma identificação. É poder usar ferramentas que existem na sua vida para dar vida à essa personagem. Quando ela é muito fora do teu espectro, ela demanda uma energia diferente. O Livaldo faz coisas com o filho e com a Carmen que me mostram que ele não é uma pessoa boa, tem um desvio de caráter. Na sua personalidade seria muito mais fácil ser o bonzinho, já que sou um cara de boa, que sempre primou pelo caráter, pela honra, pela correção.

Ele é um malandro ou tem algum afeto ali?

O  Livaldo é totalmente incorreto. Por outro lado, existe o fato de que o mocinho e a mocinha são papéis chatos.  O vilão é sempre rico porque tem muitas nuances. Como a gente está podendo entender dentro da dramaturgia mundial, a gente não tem mais aquele maniqueísmo da pessoa ser só má ou só boa. As pessoas são boas e são más. Isso você vê através das séries americanas como Breaking Bad, Família Soprano, Med Men, que são séries que fizeram sucesso, e isso fica claro. E aqui dentro da nossa televisão, isso também está bem colocado, ou seja, você vê a humanidade das pessoas, mesmo elas fazendo as maiores atrocidades. O foco dele é a Carmen, e isso respinga no filho que ele está reencontrando. E  causa  um dilema, que a personagem tem que negociar.

Você acredita que ele tenha afeto por esse filho?

Sempre teve. Como ele era péssima influência porque era jogador, arriscava coisas, era como um fio desencapado, daqueles que você vai mexer e sabe que vai dar choque. A Carmen preocupada com o filho, disse ‘te dou uma grana para você sumir das nossas vidas’. Ele estava precisando. As circunstâncias o fizeram aceitar esse negócio e ela continuou o empurrando [para fora da vida dela e do filho]. Como homens dentro da nossa vivência não têm esse compromisso tão forte como tem as mulheres e mães, que são viscerais, ele mete o pé na vida e vai. Chegou num ponto que por conta do filho querer conhecê-lo, ele volta, e acaba sendo na história psicológica, esse ciclo vicioso do filho querer conhecer o pai que o abandonou.

O Samuca sabia que o pai recebia dinheiro para isso?

Não. Mas ele acaba descobrindo porquê dessa situação toda. A Carmen também não foi tão legal assim afastando ele, porque pai é pai. E eu, Nelson Freitas, tenho uma vivência disso muito forte, muito definitiva na minha personalidade. Minha mãe também me afastou do meu pai propositalmente. Era uma coisa do tipo ‘não quero que você o veja’. E ela brigava quando a gente encontrava com ele, porque ela sentia às vezes o cheiro do meu pai na gente. ‘Você teve com seu pai’, ela dizia. Eu vivi isso.

Por que ela o afastava de você e de seus irmãos?

Por que ele era o Livaldo, pô (risos). Meu pai era um cara que vivia fora do tempo dele. Era louco, mas um louco do bem. Minha mãe adotou essa técnica ‘carminiana’ de ser e me afastou. A porrada final foi ela ter me mandado para o Colégio Militar. Com 12 anos eu saí de casa, então, não tinha mais como me encontrar com ele. Daí nunca mais voltei para Mogi das Cruzes, que é a cidade onde nasci. Ele era um cara legal, eu gostava dele para cacete, mas ele realmente era um fio desencapado.

Como você vê a postura da sua mãe hoje em dia?

Você tem ideia da quantidade de dinheiro que gastei com analista para poder entender isso? Estou com 56 anos, e é sempre uma pergunta. Cheguei a achar em determinado momento que a culpa era minha. Olha como é uma doideira a vida. Tiveram momentos que achei que ter filhos não era uma coisa legal. Porque eu sentia que atrapalhava a vida dos meus pais. Minha mãe não tinha a menor delicadeza ao falar. Dizia: ‘a culpa é de vocês que só fazem merda’. Mas eram merdas de criança como correr atrás de pipa. Então a gente achava que a culpa de eles não estarem legais, eram da gente. Tudo bem que naquela época eu tive uma educação rígida, de porrada, e até hoje ela acha legal isso, porque diz ‘Olha para vocês, estão todos bem, cresceram’. Minha mãe é viva ainda, a roliça rebelde…  e acha que tudo o que ela fez foi certo. Ela não está de todo errada, mas não de toda certa. Todos tivemos úlcera, problemas no aparelho digestivo, que é o primeiro que segura a onda. Meu irmão morreu de câncer no intestino, de reincidência, de culpas.

Como você vê sua ida para o colégio interno?

Ela tinha uma coisa que quando queria punir a gente, dizia ‘eu vou botar vocês no colégio interno’. Quando apareceu o colégio interno de verdade, eu adorei porque iria sair daquela loucura. O meu irmão que morreu, o Régis, já não gostou. Achou que estava sendo mesmo punido. E não tinha aquela coisa de ‘vem cá, vamos conversar’. Hoje em dia todo mundo conversa, filho dá ideia em pai. Acho isso legal e tento aplicar isso nas minhas filhas, que não são filhas legítimas, mas são filhas que abracei na vida. Elas se aproximam, batem papo e acho isso do cacete. Meu neto, Felipe, que já está com 14 anos, virou o amor da minha vida, porque foi com ele que entendi o significado da palavra ‘amor’.

Você e sua mulher criaram seu neto?

Ele teve um problema na fala com 4 anos de idade e decidimos ‘escanear’ o moleque. Aí ‘escaneia’ daqui e dali, e quando chegou na neurologista infantil ela disse ‘temos uma possibilidade de um espectro autista, estimula ele e volta daqui a quatro meses’. Botamos ele para andar a cavalo, judô, conversamos muito com ele, e fizemos tudo o que podíamos. Para a felicidade geral da nação, já tínhamos mais estabilidade, mais grana, e resolvemos ficar morando com ele, e chamamos a Gabriela, mãe dele para ter um ‘MBA’ de como se cuida de um filho. E assim foi. Ela ficou 8 meses morando conosco, ele ficou dois anos. Quando ela resolveu levá-lo de volta foi triste.

Como foi pra você essa questão?

O moleque chegava da escola gritando “avô”. Você acha que eu não queria que ele ficasse comigo? Mas não era o lugar dele. O lugar dele era com o pai e a mãe. Porque muito do que ele representava naquele momento era pela falta de jeito de pai e mãe. Quando Cristina  e eu levamos ele, conversamos com eles dissemos ‘A gente pegou um brinquedinho quebrado. Estamos devolvendo inteiro. Se pisarem na bola de novo, eu vou levar de volta’. Aí a Gabi falou ‘Então você vai ter que vir morar comigo porque daqui ele não sai’.

E como é a relação de vocês dois?

Ele é uma graça. Mas ele é totalmente dessa geração aí que vem encarnada de outros planetas, tenho certeza disso. Esse moleque não é desse planeta. Teve um momento que a mãe dele conversou com ele e falou ‘o vovô não é meu pai, eu tenho um outro pai’. Eu estava todo cagado de dizer isso para ele. De dizer ‘não sou seu avô de verdade, sou de mentira’. Ele foi malandro para me dizer como sabia. Um dia estávamos em algum lugar, ele olhou para mim e falou ‘que bom que a minha avó te escolheu’. Ele não parou para dizer ‘Minha mãe já me falou’, nada disso.

Com toda essa história da sua vida, você se emocionou muito gravando como Livaldo?

A coisa sobre o Samuca na novela, isso mexe muito comigo. Não tinha perspectiva de me emocionar dessa forma. Nossa primeira cena foi muito legal. Ele acabou indo muito mais porque existia uma demanda dele para ver o pai, e eu já sabia que o Livaldo voltava com más intenções, que era tomar a empresa. Eu saí com o Nicolas (Prattes) conversando em cena, e quando a gente se separou eu comecei a chorar sozinho. Voltou tudo na minha cabeça. Imagina como eu queria abraçar meu pai? Não sei se ia querer ter ele hoje, porque poderia ser uma desgraça na minha vida. Era um cara com um tom acima, louco. Ele fazia coisa para o bem dos moleques, mas queria fazer o bem por meios errados

O Livaldo vai continuar fazendo malandragens?

Ele vai tentar ficar com a empresa. O Lúcio (João Baldasserini) comprou a dívida dele. Ele saiu em uma enrascada para entrar em outra. E o Lúcio diz para ele ‘Você é meu Livaldo. Você está na minha mão. Ou você faz o que estou mandando ou vou botar os caras na tua cola’.

Você acha que ele pode se regenerar?

Eu espero. Não sinto porque tudo é possível, mas o caminho que resolvi dar para ele é ser agradável, legal, como todo malandro.

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