Na meia-luz da UTI, o emaranhado de tubos, cateteres, agulhas tem a função de suprir o paciente com oxigênio, soro e medicamentos; por intermédio deles, e só por eles, o homem, que ali jaz semi-inconsciente, tem um mínimo de sobrevida. Monitores aferem-lhe a pressão, os batimentos cardíacos, as ondas cerebrais. Na cadência intermitente do bip, a certeza da vida mantida. Mas não há garantias. Alberto está desenganado. O AVC (acidente vascular cerebral) tirou-lhe a voz e quase todos os movimentos. Com muito esforço, ainda consegue mover uma das mãos. Uma realidade nada confortável para alguém acostumado com os passos da dança. Já não pode rodopiar pelas gafieiras, conduzir Iraci ao som do mambo; não pode beijá-la, não pode mais rir nem fazê-la rir, não pode mais nada. Alberto só pode olhar e sofrer.

E é com um olhar sofrido que Alberto ouve a filha ler no bilhete apaixonado de Iraci que ele foi um dos únicos amores da vida dela. O mesmo olhar com que ele, mais tarde, encara a visita da querida parceira. As lágrimas que escorrem no seu rosto deixam claro que ele tem, sim, consciência de que é a última vez que se vêem. Iraci não quer mais ir ao baile, não quer mais ser Rainha do Havaí. O que importa esse título sem ele? Mas Alberto insiste, quer que ela vá. Diante da mulher que ama, usa todas as forças para não parecer tão abatido. Perdeu os movimentos, não o orgulho, a dignidade. E, com indescritível deleite, ouve Iraci dizer que a vida ganhou mais cor e mais sabor depois que ela o conheceu. Essas palavras e um último beijo são a despedida. Depois, sem Iraci, nada mais lhe resta.

A morte, em certos casos, pode ser uma benção. Alberto não suportaria ouvir mais as lamentações e as cobranças de Tereza, a frieza do filho; sequer agüentaria um futuro cheio de limitações, em não pudesse dispor da leveza do bailarino que fora. Quer ficar sozinho. Não totalmente, mas com Lena – a única que o compreendeu. É a última a vê-lo vivo. Morrer é seu último desejo atendido. Alberto jamais será infeliz.

A cena deve ser exibida terça-feira, 18/03.



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