Claudia Raia / Instagram

Na reta final de ‘Verão 90’, Claudia Raia fez um balanço do trabalho como Lidiane. A atriz, que foi musa nos anos 1990, conquistou o público com o jeito atrapalhado da personagem.

Se no início da trama a mãe solteira vivia as voltas com a filha, Manu (Isabelle Drummond), no fim da história ela foi contemplada com o romance com Quinzão, interpretado por Alexandre Borges, com quem a atriz já contracenou em pelo menos sete trabalhos.

Em entrevista ao Área Vip, Claudia falou um pouco do sucesso da personagem, da perda da mãe durante a novela e de como é ser mãe de Enzo e Sophia.

No início da novela, as cenas da Lidiane ainda com a Manu pequena deixou a impressão que ela seria uma vilã, mas no decorrer da trama a gente viu que não foi assim. Como foi para você representar as mulheres que criam as filhas sozinhas, sem a presença de um homem?

São as duas ali, uma pela outra e isso dá a humanidade dela. Essa aparência de vilania vem na inadequação dela, porque é muito louca. Eu falo toda hora com a Isabelle ‘que absurdo isso que ela fez’, e ela defende a personagem. A Lidiane se mostra com um coração aberto, se ferra no caminho, mas sem dúvida é muito batalhadora, muito forte, e muito empoderada nos anos 90, uma mulher que nunca precisou de homem. Ela tocava a vida dela, tem orgulho dos filmes, da carreira de pornochanchada… A relação dela com o Patrick é algo bom de falar nesse momento de que uma mulher mais madura pode estar com um rapaz mais jovem e é amor de verdade, não é outra coisa, outro tipo de interesse.

Você comentou que colocou coisinhas de outras personagens na Lidiane. Teve algo que você foi inserindo ao longo dos capítulos?

Eu inseri muita coisa. O ‘tudo bom’, foi uma brincadeira minha e da Tatá Werneck, e eu botei isso numa cena com o Rafa para fazer uma homenagem a ela. Quando falei, todo mundo caiu na gargalhada. É uma coisa tão minha e dela quando a gente se encontra que eu não sabia que isso ia funcionar tão bem. Isso virou um bordão, e nunca mais parei de falar ‘tudo bom’, e onde eu vou as pessoas falam. Incrível porque foi uma coisa super ingênua da minha parte. Não era minha intenção fazer um bordão e acabou acontecendo. Tem muita coisa que trago de outras pessoas, digo que o ator é um bom ladrão (risos). Fico com tudo armazenado, então tem horas que o texto vai vindo e a gente cria. O sotaque por exemplo, eu sou paulista, meu sotaque é paulista, e para fazer a carioca foi difícil, mas meus filhos são cariocas, e tenho muita gente que fala daquele jeito, fui pegando e virou esse retalho de homenagens que é a Lidiane.

A relação da Lidiane com o Quinzão caiu no gosto do público. O que você achou desse casal?

Ela tem essa coisa quase infantil. Tem uma ingenuidade que justamente é o contraponto de uma sensualidade meio bagaceira por ter sido atriz de pornochanchada, então ela virou uma personagem que todo mundo quer levar para a casa. Acho que isso atrai o Quinzão. É a sétima vez que faço par com Alexandre, a gente já é PHD um no outro. É muito legal fazer par com quem você tem intimidade, com quem você é amigo, com quem você admira, então foi de novo um grande presente ter o Alexandre novamente, mesmo que tenha sido só no final.

Como foi para você fazer aquela cena do ensaio fotográfico?

Eu acho que a personagem precisaria ter esse tipo de coisa, ela tem essa relação com o corpo, afinal essa é a origem dela. E eu teria que ter toda a disponibilidade para fazer isso, e acho que ficou bom, porque tem coisa que não dá mais para fazer. Tem coisa que você olha e pensa ‘vai ficar ridículo se eu fizer’, então o resultado foi legal. Televisão é tudo corrido, em foto a gente pode rebuscar mais.

Sobre as cenas sensuais, você está sendo muito elogiada na internet. Você sente que as mulheres da sua faixa de idade te procuram para falar sobre isso?

As pessoas falam nas minhas redes, elogiam muito, gostam, acham graça, porque só dá para fazer aquilo no horário das sete porque é comédia. É legal ver uma mulher de 50 e poucos anos, com esse fogo, essa vontade de viver. Na verdade, isso é real, as mulheres têm isso dentro delas, é que elas são abafadas por um formato de ‘você passou de 40, é velha’, e não existe isso. O mundo inteiro fala de outra coisa, e o Brasil continua machistamente tentando abafar essa mulher como se ela não existisse, e a gente tem que acabar com isso.

Você falou sobre ser uma atriz de comédia, mas tiveram cenas de drama também durante a novela, né?

Não é só porque é uma personagem de comédia que ela não tenha sua dor, suas lágrimas. A diferença é fazer aquele monte de loucura que se faz na comédia, com uma verdade que as pessoas acreditem. Ela está falando as maiores barbaridades, e as pessoas pensam ‘estou com ela’, porque tem uma coisa humana na frente. Não é a piada pela piada. A piada acontece porque ela é uma doida, inadequada, mas ela ir na cadeia por exemplo, pedir para o João se separar da Manu, foi a pior coisa que uma mãe poderia fazer. Às vezes acho tudo tão absurdo, mas as pessoas não acham, acreditam que ela é uma mãe que foi defender a filha. Quando se cai na empatia, pode tudo. Acho que a direção teve uma mão muito forte em nos conter e sempre trazer a humanidade, o coração da personagem na frente. A gente se manteve bem, mesmo fazendo loucuras, porque as autoras são muito boas de comédia. Tudo tem que ser crível e o público tem que acreditar em tudo o que você está fazendo. Vão vir mais lágrimas por aí, como ela se justificando para a Manu, e é bonito o movimento que elas fazem uma com a outra.

Você tem um pouco de Lidiane como mãe na vida real?

Deus me livre! Eu a acho uma mãe muito estranha, controla demais a vida da filha que é uma adulta. Ela não sabe lidar com a síndrome do ninho vazio, o que deve ser bastante duro, e eu devo estar perto disso porque tenho um filho de 22 e outra de 16. Fácil não é, mas você tem que ir trabalhando para isso. Meus filhos têm a vida deles, claro que eu interfiro quando vejo que tem algo errado, um caminho errado ou que tenho que me pronunciar. A Lidiane invade a casa da filha, manda fazer uma obra que não acaba nunca, é uma louca que domina tudo.

Na idade que a Sophia está, você temeu que ela pudesse sair de casa, assim como você saiu bem cedo?

Eu saí de casa com 13 anos, e pensei ‘será que ela vai fazer igual’? Ela quer ir. Se ela tivesse vontade de ir com 13, eu ia tentar aguentar e fazer o que minha mãe fez. Ela viu que ela tinha parido uma doida que queria voar, e que se ela não abrisse a portinha da gaiola, eu iria arrebentar a gaiola. Acho que é a mesma coisa, eu tentaria entender, daria recursos a ela, que minha mãe não tinha na época para me dar, mas como mulher muito forte, conseguiu me manter lá, e foi uma oportunidade muito importante.”

Nesse processo da novela, você teve uma perda na sua vida pessoal. De onde você tirou força para não perder o foco desse trabalho?

Perder uma mãe não dá! Principalmente uma mãe tão forte, tão presente, que se foi com 95 anos absolutamente lúcida.  Isso é muito duro, e sempre será. É uma dor que talvez não passe, mas sou tão grata pela vida que ela teve, e por eu ter nascido dela aos 44 anos, ou seja, há 52 anos quase ninguém nascia de mães com essa idade. A minha gratidão é maior que minha dor. Minha dor é imensa, mas tinha o meu trabalho. Um trabalho que amo fazer. Meus amigos, minhas filhas postiças, meus filhos verdadeiros, todo mundo à minha volta e ainda com uma personagem que me ajudou a levantar. Estar fazendo uma personagem de comédia é bom por isso. Aconteceu a mesma coisa em Ti Ti Ti (2010) quando me separei do Edson (Celulari), era uma personagem que também me ajudou, porque essas coisas te impulsionam para cima. Claro que você não deixa de viver o luto, e ainda estou vivendo, mas essa novela e essa personagem me ajudaram muito, e também o amor de todos os meus amigos e minha família.

Você atua, produz, agora está palestrando, e está no ar diariamente. Queria que você falasse um pouco sobre isso.

Eu acho que a novela veio num crescendo, e foi preparada para esse momento. É um momento eu estar no ar de domingo a domingo. O Faustão vai até 15 de julho, sai do ar antes da novela, e é algo bacana porque adoro fazer o ‘show’, acho que a gente criou ali uma cumplicidade, uma união. É muito delicado porque julgar é muito complicado, é uma posição difícil principalmente por julgar pessoas com carreiras consolidadas, e pessoas importantes no meio artísticos que estão ali se expondo num momento até frágil porque é difícil fazer aquilo. Estamos ali para encorajar e dar ferramentas para essas pessoas continuarem se arriscando. Amo fazer, e termino sempre tendo muito carinho com todos os participantes porque a gente acaba convivendo.

Você é do povão né?

Eu sou do povo. Eu popular, faço minha arte para o povo.

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