Análise: Nikolas Ferreira, ensino domiciliar e os “desconhecidos”

O contraste entre o discurso e a realidade educacional no Brasil

Lívia Cout
Lívia Cout
Lívia Coutinho é formada em Psicologia, mas começou sua trajetória como redatora em Maricá/RJ há mais de seis anos. Ela produz conteúdos para os nichos de política, entretenimento e celebridades. Além do Área Vip, ela também já trabalhou no Portal R7, Jetss e Paipee Brasil.
Nikolas Ferreira
Nikolas Ferreira. Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados

O problema central do discurso de Nikolas Ferreira não está apenas na defesa do ensino domiciliar, mas na forma como ele reorganiza, de maneira simplificada, o papel da escola na formação humana. Ao chamar professores de “desconhecidos”, o deputado federal do PL desloca o debate para um ponto mais profundo: a desvalorização simbólica de uma profissão que nos prepara para a vida.

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Nikolas Ferreira e o discurso de apagamento simbólico dos professores

Quando Nikolas escolheu essas palavras, não foi por acaso. Afinal, existe uma diferença entre dizer que não conhece alguém e preferir fingir que essa pessoa não tem importância em sua vida. Nesse contexto, a pergunta que emerge não é apenas retórica: quem construiu a trajetória educacional de quem hoje questiona a própria educação e a escola como instituição?

Em geral, o percurso até o ensino superior no Brasil passa, obrigatoriamente, pela escola pública ou privada. Essa mediada por professores que sustentam um sistema com todas as suas limitações estruturais. Então, afinal, quem ajudou Nikolas a concluir uma faculdade de direito e chegar ao posto de deputado hoje?

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O papel social da escola que os bolsonaristas insiste em reduzir

Para Nikolas e defensores do “homeschooling”, o espaço escolar se reduz a uma função técnica, como se ensinar fosse apenas transmitir conteúdo. Porém, a escola não é apenas espaço de aprendizagem formal, mas também um dos poucos ambientes de convivência fora do núcleo familiar. É na escola que crianças e adolescentes aprendem a lidar com regras coletivas, divergências, frustrações e diferentes realidades sociais.

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Além disso, outro ponto ainda mais relevante é o cenário de vulnerabilidade dentro de casa. Em relatórios recentes, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que mais de 80% dos casos de agressão, negligência e abuso contra crianças e adolescentes no Brasil ocorrem dentro do próprio ambiente familiar ou domiciliar. Ou seja, uma média superior a 115 mil vítimas por ano, o que representa cerca de 13 crianças agredidas por hora!

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Todos esses dados reposicionam o papel da escola: em muitos casos, o ambiente escolar não é apenas espaço de aprendizagem, mas também de proteção indireta, onde situações de negligência ou abuso podem ser percebidas por profissionais da educação (os “desconhecidos”).

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A discussão, portanto, não se limita à escolha entre modelos educacionais. Ela expõe uma tensão maior: o modo como a sociedade enxerga a escola, o trabalho docente e a própria infância. Ao reduzir o papel do professor a uma figura “desconhecida”, o discurso esvazia uma função que, na prática, sustenta o acesso mínimo ao conhecimento formal para milhões de pessoas.

O Brasil que lê pouco, mas quer discutir como ensinar

Ao entrar no campo da viabilidade do ensino domiciliar no Brasil, outro dado muda o eixo da discussão. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, o país ainda convive com cerca de 9 milhões de pessoas em situação de analfabetismo. Além disso, estudos do próprio IBGE, e de instituições educacionais, indicam que há uma parcela significativa da população com  dificuldades de leitura e interpretação de texto (o famoso “analfabetismo funcional”).

Esse cenário revela um ponto estrutural: o problema educacional do Brasil não está na existência da escola, mas na sua desigualdade de acesso, permanência, qualidade e na desvalorização dos profissionais do meio.

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Outro elemento que raramente entra na discussão é a rotina de trabalho da população. Em um país onde grande parte dos trabalhadores enfrenta jornadas extensas e deslocamentos longos, a ideia de que responsáveis teriam disponibilidade contínua para assumir integralmente a função pedagógica dentro de casa é irreal. Nikolas Ferreira, por sua vez, votou contra a redução da escala 6×1.

Assista e entenda:

**As críticas e análises aqui expostas correspondem a opinião de seus autores

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Lívia Coutinho é formada em Psicologia, mas começou sua trajetória como redatora em Maricá/RJ há mais de seis anos. Ela produz conteúdos para os nichos de política, entretenimento e celebridades. Além do Área Vip, ela também já trabalhou no Portal R7, Jetss e Paipee Brasil.
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